domingo, julho 01, 2007

a compatibilidade da música em diferentes panoramas *



A banda sonora é um elemento que apesar de existir à mais tempo no cinema, acabou por surgir também no mundo dos videojogos, tendo assumido uma importância cada vez maior principalmente nos grandes títulos actuais. A obra de Steven Poole (1) prevê uma evolução abrupta no panorama musical presente na concepção de um videojogo. A tendência que se tem vindo a verificar tem correspondido a todas as suas expectativas. As bandas sonoras dos videojogos, hoje em dia, não se destinam apenas ao jogador. As músicas comerciais que integram as bandas sonoras, permitem que qualquer pessoa consiga ouvir as respectivas faixas musicais, mesmo sem ter um mínimo conhecimento do videojogo em questão. A variedade de bandas conceituadas que integram a banda sonora de Grand Theft Auto: Vice City (Rockstar North, 2003), vão de encontro a esta tendência. Megadeth, Iron Maiden, Frankie Goes to Hollywood, Foreigner, INXS, Michael Jackson, entre muitos outros, são o resultado de uma banda sonora que, apesar de ser de um videojogo, assume uma clara vertente comercial, da mesma forma como acontece com as bandas sonoras dos filmes (2).

Existem videojogos que, para além da implementação de diferentes faixas musicais ao longo da jogabilidade, colocam à disposição do jogador a hipótese de escolha. Esta é, na minha opinião, a grande vantagem de jogar Grand Theft Auto 3
(Rockstar North, 2002) no PC comparativamente a uma consola como a Xbox ou a Playstation 2. Depois de concluída a instalação, é possível verificar que dentro do directório de GTA3 existe uma outra pasta vazia denominada “mp3”. Nesta pasta, o jogador poderá colocar as músicas que bem entender em formato mp3. Apesar de limitada (3), esta possibilidade oferece ao jogador uma oportunidade de criar a sua própria estação de rádio (4). Assim, e para além das estações de rádio já existentes, a versão PC de Grand Theft Auto 3, dispõe ainda de um “mp3 player” que permite ao jogador ouvir as músicas que colocou na respectiva pasta “mp3” do videojogo. Esta vantagem permitiu-me alargar a experiência em Grand Theft Auto 3, de maneira a variar o género de música pretendido. As músicas escolhidas, neste videojogo, poderão resultar numa divertida jogabilidade dependendo do género musical propriamente dito (5). Grand Theft Auto 3, consegue alargar fronteiras apenas devido à escolha das músicas efectuadas.



Numa experiência, decidi colocar a banda sonora do recente filme [sic] de Michael Mann – Collateral
– que conta com a participação de actores como Tom Cruise e Jamie Foxx. Tom Cruise interpreta Vincent, um assassino contratado para realizar alguns serviços durante uma única noite na cidade de Los Angeles. O seu envolvimento com o taxista Max (Jamie Foxx) torna-se iminente a partir do momento em que Vincent entra no seu táxi para cumprir os referidos serviços. Max vê-se obrigado a assistir aos vários homicídios, tornando-se assim cúmplice de Vincent . Tendo em conta a história de Collateral e a sua banda sonora, foi-me possível inserir na pasta “mp3” algumas das faixas musicais, de maneira a poder ouvir no rádio de um táxi enquanto fugia à polícia a alta velocidade pelas ruas de Liberty City. Apenas com a escolha de músicas, foi-me possível “interpretar” diferentes personagens (como o taxista Max durante a condução) e "recriar" algumas cenas presentes de diferentes filmes, o que alarga de forma considerável a experiência total de jogo. Desta forma, o ponto de ligação que a música estabelece entre um videojogo e um filme poderá ser evidente consoante as escolhas que o jogador efectuar e o conhecimento prévio que possui em relação ao respectivo filme.



Se nas décadas de 80 e 90, seria pouco provável ouvir a banda sonora de um videojogo – fora da sua realidade virtual – já em pleno século XXI, e depois da já referida evolução ao nível das músicas presentes nos títulos mais recentes, é possível ouvir em qualquer aparelhagem a banda sonora de um determinado videojogo, bem como colocar a respectiva compilação de faixas musicais num leitor de CD's de um automóvel, conseguindo, por exemplo, transportar um elemento presente no ambiente virtual de GTA3 ou GTA: Vice City para a nossa realidade, enquanto conduzimos pelas ruas da nossa cidade.


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* CARITA, André (2006), Cinegames - Influências e as diferentes adaptações, Tese de Licenciatura em Tecnologias de Comunicação Multimédia, Instituto Superior da Maia. Exerto editado do original "A banda sonora: elemento comum #2", pertencente à quarta subsecção da primeira secção do terceiro capítulo, pp. 165-172.
(1) POOLE, Steven (2000), Trigger Happy – The Inner Life of Videogames, London, Fourth Estate Limited.
(2) DIEZ, Frederico Fernández e ABADÍA, José Martinez (2003), Manual Básico de Lenguaje y Narrativa Audiovisual, Barcelona, Paidós, pp. 183.
(3) Em média cinco a seis ficheiros (.mp3).
(4) Neste videojogo só é possível ouvir as músicas enquanto se conduz – através do rádio do veículo. Contudo existem veículos que não permitem ouvir música, como é o caso dos veículos da polícia.
(5) Numa dessas experiências, uma das minhas escolhas incidiu no género popular – também conhecido como música “pimba”. Conduzir a alta velocidade pelas ruas de Liberty City a atropelar NPCs ao som de “Nós Pimba” ou “Toma Toma Minha Linda”, da autoria do cantor Emanuel, torna a condução e os atropelamentos estranhamente divertidos.